Unibes

Quem Somos - Histórico

UNIBES

Desde 1915 da caridade ao Serviço Social

A história da UNIBES, de quase um século, é a história de sete diferentes entidades assistenciais, a primeira das quais foi a Sociedade Beneficente das Damas Israelitas fundada em 1915. A trajetória destas entidades, ao longo do século 20, perpassa a história da imigração, do estabelecimento das primeiras instituições judaicas em São Paulo e de todas as transformações vividas pela comunidade judaica a partir da primeira década do século 20.

Em 1916, um ano após a fundação da Sociedade das Damas Israelitas, foi fundada a Sociedade Beneficente Amigos dos Pobres Ezra, que cuidava de todas as etapas da vinda dos imigrantes judeus pobres da Europa ao Brasil, desde a carta de chamada, o desembarque no porto de Santos, o primeiro alojamento no bairro do Bom Retiro, o curso de português e o encaminhamento para um emprego. Depois, a Ezra auxiliava também os judeus pobres já estabelecidos na cidade. Nos final dos anos 20, a Ezra tornou-se a representante em São Paulo das principais organizações judaicas internacionais que providenciavam a emigração de judeus da Europa.

Os anos de 1915 e 1916, quando foram fundadas a Sociedade das Damas e a Ezra, marcam o início da organização dos judeus em São Paulo. Até então, havia apenas uma sinagoga e uma pequena escola religiosa no modelo tradicional do cheder da Europa Oriental Pode-se dizer que estas entidades, ao recepcionar de forma organizada os imigrantes e normatizar a vida deles na capital, definiram e configuraram a própria existência de uma "colônia israelita" em São Paulo, que contaria depois com a fundação de uma escola, de uma sociedade cemitério e de outras entidades. Em 1924, a Ezra, cuja sede era na Rua Amazonas, no bairro do Bom Retiro, fundiu-se com a Sociedade Pró-Imigrante, tornando-se Sociedade Beneficente Israelita Ezra.

Em 1929 foi fundada a Sociedade Beneficente Linath Hatzedek, depois chamada Policlínica, um ambulatório para consultas, procedimentos como curativos e banhos de luz e pequenas cirurgias. A Policlínica funcionava em uma casa na esquina das ruas Ribeiro de Lima e Prates. Em sistema de rodízio, médicos atendiam voluntariamente na sede da entidade, em várias especialidades, e recebiam pacientes em seus consultórios, mediante desconto no valor da consulta.

Na década de 30, duas novas instituições surgiriam em São Paulo: a Gota de Leite da B'nai B'rith e o Lar da Criança das Damas Israelitas, localizado na Rua Jorge Velho, também no bairro do Bom Retiro. Enquanto a primeira providenciava cuidados a recém-nascidos e procurava difundir conhecimentos considerados científicos sobre como cuidar dos bebês, o Lar abrigava crianças imigrantes órfãs e crianças cuja precária situação familiar era um impedimento para manter uma estrutura na qual as crianças pudessem viver de forma adequada.

Em 1936 foi fundado em São José dos Campos o Sanatório Ezra para tuberculosos que, nos anos 40, chegou a ter 120 leitos e 30 funcionários. Imigrantes de todo o país eram enviados ao Sanatório e isto mobilizou várias campanhas para manter os pacientes de cada cidade e contribuir com a existência do Sanatório. Até a década de 1940, não havia cura para a tuberculose, que constituía uma das doenças com maior índice de mortalidade no mundo; o tratamento era uma combinação de internação em localidades consideradas "zonas climatéricas", com descansos, dietas e uma rígida disciplina de comportamento. O Sanatório funcionou até o ano de 1966, quando, diante da substancial queda no número de internos e da desapropriação (com a devida indenização) do terreno pela prefeitura local, suas atividades foram encerradas.

Em 1940, foi fundada a Organização Feminina Israelita de Assistência Social - Ofidas, a partir da fusão da Sociedade das Damas Israelitas, Lar da Criança das Damas e Gota de Leite. A Ofidas era constituída por uma diretoria de mulheres e atendia a família, a criança e a mulher sob uma perspectiva que se pode considerar do ponto de vista das relações de gênero. Diferente da Ezra, cuja diretoria era formada por homens e que entendia que ocupar-se com o chefe de família, ajudando-o financeiramente e a encontrar um emprego, resolvia a situação da família como um todo, a Ofidas via questões mais amplas e complexas - além da ajuda monetária - olhando para a especificidade da situação da criança e da mulher na família e na sociedade.

Entre as décadas de 50 e 60, as três principais entidades beneficentes da comunidade judaica de São Paulo passaram a contar com o trabalho profissional de assistentes sociais, que tecnificaram e profissionalizaram o atendimento. Os conceitos de Serviço Social tornaram-se diretrizes centrais nestas entidades, que funcionavam desde os anos 1910 segundo um modelo de caridade e filantropia por meio do qual os diretores recebiam diretamente os imigrantes e as pessoas pobres e decidiam pessoalmente a ajuda que seria dada. O trabalho dos assistentes sociais foi em grande parte induzido pela Federação Israelita de São Paulo nos anos 50, quando correntes imigratórias fizeram chegar ao país algumas centenas de imigrantes judeus oriundos principalmente da Hungria, Egito e Líbano, mas também de países da Europa Oriental e de Israel. A Federação concedeu bolsas para que jovens estudantes de Serviço Social trabalhassem nas entidades assistenciais judaicas e, com isso, estimulou a formação e a profissionalização de assistentes sociais.

Este processo culminou com a criação do Serviço Social Unificado da comunidade judaica, em 1969, que englobou outras entidades que prestavam alguma modalidade de assistência social. Com a profissionalização e a tecnificação do atendimento, os assistentes sociais promoveram a discussão sobre a conveniência de manter três diferentes entidades, Ezra, Policlínica e Ofidas, o que provocava certa sobreposição de esforços e de recursos. A criação da UNIBES foi precedida por longos debates sobre qual o melhor modelo de atendimento e como promover a fusão de três entidades com histórias e objetivos distintos dentro do quadro do Serviço Social.

Entre os anos 50 e 60 outros modelos de entidade foram ainda discutidos pelas entidades assistenciais. Enquanto a Policlínica cogitava construir um novo ambulatório ou um pequeno hospital no Bom Retiro, a Ezra pensou seriamente em construir um hospital psiquiátrico e uma clínica para doentes crônicos, a partir da indenização recebida com a desapropriação do sanatório em São José dos Campos. Mas estes planos não foram levados adiante.

A UNIBES - União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social foi fundada em 1976 a partir da fusão de Ezra, Policlínica e Ofidas. A UNIBES é a continuação de todas as entidades que a formaram, desde 1915. De cada uma delas, a UNIBES herdou experiência e métodos de trabalho e, acima de tudo, uma longa história de trabalho social dentro e fora da comunidade judaica.

Todo este conteúdo marca, certamente, uma trajetória que entrelaça a história da assistência social (em seus vários modelos, da caridade ao Serviço Social e ao conceito de Promoção Social) à própria história da comunidade judaica em São Paulo e seu estabelecimento na cidade. É uma história de altruísmo e de sentido comunitário em que diferentes grupos e diretorias criaram diferentes modelos de atendimento. A busca de modelos e de métodos, os debates, as fusões, as identidades e as diferenças, sempre tiveram como objetivo dar uma vida digna aos imigrantes, aos membros necessitados da comunidade e, depois, aos carentes (atualmente usuários) da sociedade em geral - como mostram os vários programas que a UNIBES mantém para atender a população paulistana.

Roney Cytrynowicz é historiador e pesquisador da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História. Coordenou a pesquisa histórica e a edição do livro UNIBES 85 anos. Uma história do trabalho social da comunidade judaica em São Paulo.

>> Voltar para Home

© Copyright 2007 - União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social - R. Rodolfo Miranda, 287/293 - B. Retiro - Tel: (11) 3123 7300